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Casa Verdades de Faria

 

Deixo a minha casa e quinta denominada Torre de S. Patrício, sita na Avenida Sabóia, 60, Monte Estoril […] à Câmara Municipal de Cascais, nas seguintes condições:

1º - o edifício principal, e uma área de cerca de cinco mil metros quadrados, constituindo o jardim e a moldura verde da fachada sul, para serem utilizados como Casa-Museu e jardim público;

2º - [...]  A Casa-Museu terá a designação de Museu Verdades de Faria

 

Rezava assim o testamento, redigido em 1968, de Henrique Mantero Belard de Velaverde de Albuquerque e Castro, homem ligado ao comércio e à alta finança, que pretendia perpetuar desta forma o nome da esposa, Gertrudes Eduarda Verdades de Faria Mantero, mais ligada às coisas do espírito: valorizou a cultura, apoiou os artistas e intelectuais do seu tempo e foi grande coleccionadora de obras de arte. Deste seu gosto, surgiu a determinação do marido de transformar a casa num museu. Para esse efeito, doou o benemérito ainda à Câmara uma parte do que descreveu como “as minhas mobílias, quadros, gravuras, porcelanas, livros, adornos mobiliários, jóias, pratas e objectos de uso doméstico”.

 

Por morte de Mantero Belard em 1974, e na sequência do seu testamento, a Câmara Municipal de Cascais tomou posse da Torre de S. Patrício, em 26 de Fevereiro de 1982.

 

O edifício foi mandado erigir por Jorge O’Neill, descendente directo da Real Casa Soberana da Irlanda, que nos finais do século XIX, seguindo o exemplo da Corte Portuguesa, escolheu Cascais para estância de veraneio. Nessa localidade, viveu na Torre de S. Sebastião que mais tarde vendeu a Manuel de Castro Guimarães. Na sequência desta venda, em 1910, Jorge O’Neill vem a adquirir no Monte Estoril um terreno onde vai mandar edificar novamente uma Torre. Por virtude de uma primeira fase de grande desenvolvimento, a zona transformara-se num lugar aprazível e convidativo à fixação de uma sociedade endinheirada, surgindo inúmeros chalés que ponteavam entre a frondosa vegetação deste monte, cada um ao gosto mais peculiar do seu dono.

 

Numa fase posterior a este primeiro período de ocupação do Monte Estoril, em 1918, manda Jorge O’Neill construir a Torre de S. Patrício, em homenagem ao padroeiro dos irlandeses, prosseguindo o sonho romântico, que ficara entrecortado por vicissitudes da vida e do mundo da alta finança, que motivaram a venda do seu palácio em Cascais. O projecto foi encomendado a Raul Lino, arquitecto que se impôs às influências da arquitectura europeia, que se faziam sentir nomeadamente no Monte Estoril, e defendeu o reencontro da arquitectura portuguesa com as suas tradições culturais, ambientais e paisagísticas. Fiel ao seu programa, o arquitecto concebeu um edifício revivalista, de tradição portuguesa, podendo inserir-se no chamado neo-manuelino, que se desenvolve por vários corpos assimétricos a partir da Torre de S. Patrício e mostra um grande equilíbrio na sua composição.

 

A Casa está orientada para um belíssimo jardim murado, de traçado romântico, cujo acesso é feito através de uma varanda com alpendre e por uma escadaria em pedra. As janelas e portais lembram-nos as influências árabes na nossa arquitectura e também reminiscências do estilo Manuelino. A cantaria veio parte do concelho de Cascais e parte de mais longe, e foi esculpida, conforme o projecto, por artesãos da região. São de notar as armas dos O'Neill e os shamrock, uma variedade de trevo que constitui o símbolo da Irlanda. O interior do palácio foi valorizado com estuques pintados, vitrais e azulejos setecentistas. Estes azulejos provenientes de antigos palácios e capelas foram adquiridos por Jorge O' Neill e a maneira como foram colocados e ajustados às dimensões e formas da casa confere-lhes grande originalidade.