Instrumentos Musicais
Comecei a recolher tudo isto há mais de 20 anos. Os instrumentos musicais comecei também a recolher há 20-25 anos, mais foi mais nos últimos anos que comecei a tentar organizar mais a colecção. Bem, aliás, a minha ideia era juntá-los, pensando na criação de um instituto […] e já tinha um exame de institutos deste tipo que se criaram em França, na Itália…
Michel Giacometti, in Intervenção, Setembro/Outubro 1979
A colecção de instrumentos musicais portugueses foi organizada por Michel Giacometti a par com o seu trabalho de investigação e foi em grande parte adquirida em antiquários, lojas de bric-à-brac, ferros-velhos e, também, a construtores. Por opção, são raros os instrumentos que vieram das mãos dos músicos populares, pois o etnólogo considerava que a recolha de um instrumento activo privava o músico da sua arte e impunha-lhe o corte com a sua tradição.
Giacometti procurou constituir uma colecção que fosse tão representativa quanto possível do instrumental tradicional português, juntando espécimes de grande qualidade e outros instrumentos de feitura mais rústica, mas de igual importância no papel que desempenham do ponto de vista musical, no plano harmónico, melódico, rítmico, a solo ou em conjuntos instrumentais. A colecção de instrumentos tinha também a função de deixar a memória do som que produziam, tendo-a integrado no seu grande plano de salvaguarda do património musical português. Trata-se, ainda, de um espólio de grande interesse para o estudo da organologia musical em Portugal, nos séculos XIX e XX.
Michel Giacometti organizou a sua colecção em instrumentos musicais populares portugueses - incluindo espécimes estrangeiros de utilização tradicional em Portugal -, instrumentos tradicionais “eruditos” e instrumentos musicais extra-europeus. Dentro do primeiro conjunto, ordenou-os por grupos de família organológica, seguindo a classificação de Hornbostel e Kurt Sach: cordofones, membranofones, aerofones e idiofones. Dentro desta, dividiu-a em subclasses, seguindo a proposta de Veiga de Oliveira: instrumentos para ritmo e dança, Semana Santa, Carnaval, Serração da Velha e Assuadas, instrumentos das profissões, instrumentos de passatempo e instrumentos/brinquedo. Cada instrumento tinha informação com número de campo, o nome, o construtor ou a oficina, a proveniência, data de construção ou idade provável, dimensões e uma pequena descrição física, que em alguns casos chegava a referir o nome das madeiras, assim como algumas referências qualitativas, como belo instrumento, espécime raro.
Em 1981, Michel Giacometti vendeu a colecção à Câmara Municipal de Cascais, tendo vindo a constituir o núcleo fundador do Museu da Música Portuguesa, onde foi força mobilizadora no desenvolvimento do seu programa museológico. A partir dela promoveram-se exposições e foi apresentado, em 1988, um projecto de estudo organológico da viola campaniça, que realizou o levantamento dos planos de construção do instrumento, a construção de uma réplica e a sua apresentação em exposição, acompanhada de uma conferência e um concerto com os tocadores tradicionais. Estavam lançadas as principais linhas de orientação do Museu: estudo, preservação e conservação do espólio e a divulgação da música portuguesa.
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