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Introdução

Como sabe, o nosso intuito não é comercial. Tenta-se apenas salvaguardar, na medida do possível, de conservar para a posteridade, de divulgar a todos os níveis sociais o que sobrevive de uma rica tradição musical. E através desta obra, colaborar (como já vimos), embora modestamente, no conhecimento total do homem português.

In, Giacometti um francês que ensina a amar Portugal, Fundão, 10 de Outubro de 1968

 

A investigação de Michel Giacometti, as suas várias missões de prospecção realizadas em todo o país, durante trinta anos, a recolha sistemática da música tradicional, da literatura popular, a observação da vida do povo e a fixação da sua cultura de tradição oral nos mais diversos suportes (fitas magnéticas, filmes, fotografias, fichas de recolha) geraram diferentes colecções documentais, além de uma colecção de objectos etnográficos e outra de instrumentos musicais.

 

A constituição das colecções entrava no grande plano de salvaguarda do património cultural português, que Giacometti iniciou em 1960 com a criação dos Arquivos Sonoros Portugueses, para virem a ser “um artístico museu onde se reunirão os mais diversos documentos sonoros, como as músicas tradicionais de Portugal e do estrangeiro, os testemunhos sonoros dos acontecimentos contemporâneos, os ruídos e as vozes do nosso tempo”.

 

Quando chegou a Portugal, encontrou um país rico de tradições seculares que já não se encontravam numa Europa industrializada e, segundo ele, “o lugar de síntese da Civilização Mediterrânea”, pelo que era urgente fixar estes documentos vivos que não tardariam a desaparecer. Esta decisão teve uma importância enorme na salvaguarda da cultura popular portuguesa, se pensarmos que se está perante um património imaterial de grande fragilidade e que na década de sessenta e setenta do século XX, se assistia ao fim de um ciclo rural e tradicional, com um enorme êxodo das populações mais jovens para as grandes cidades e para o estrangeiro, fazendo um corte irreversível na permanência de uma cultura de tradição oral.