Apenas parte do material recolhido e reunido nos Arquivos Sonoros Portugueses foi dado a conhecer, mediante edições fonográficas (que contaram, na sua quase generalidade, com a colaboração de Fernando Lopes-Graça), programas radiofónicos e televisivos, exposições e conferências, no país e no estrangeiro.
Michel Giacometti, in A Música Tradicional Portuguesa e a sua Investigação, Cronologia Geral e Notas Críticas
Michel Giacometti criou os Arquivos Sonoros Portugueses em Dezembro de 1960 que pretendia virem a ser a origem de um autêntico museu que reunisse um grande número de ecos sonoros a serem postos à disposição dos investigadores, numa diversidade de ruídos, vozes e música. Portugal era um dos raríssimos países da Europa a não possuir uma antologia da sua música tradicional e um arquivo sonoro, pelo que este projecto era, em seu entender, o caminho para a sua salvaguarda.
No seguimento da recusa da Comissão de Etnomusicologia da Fundação Calouste Gulbenkian em apoiar a sua proposta de investigação em Trás-os-Montes, Giacometti deu forma a um novo plano, bem estruturado e inovador, que previa a recolha, o estudo e a divulgação da música tradicional portuguesa. Teve do seu lado, nesta grande empresa, o compositor Fernando Lopes-Graça, que o apoiou ao longo de trinta anos.
Os Arquivos Sonoros Portugueses constituíram-se como um centro de investigação, onde se preparavam as prospecções no terreno, se acolhia e tratava a documentação levantada e se preparavam, por fim, as edições discográficas. Apesar das dificuldades em obter apoios financeiros, o trabalho avançou e, como resultado, ficámos perante um dos mais importantes arquivos do género na Europa, representando 85% das recolhas realizadas por meios mecânicos, desde 1932, em Portugal. Estes registos sonoros integram a gravação de músicas, canções, poesia, teatro popular e entrevistas.
O trabalho de campo era organizado exclusivamente por Giacometti, quer do ponto de vista científico, quer na preparação da logística para a sua concretização, com a angariação de fundos junto de várias entidades como empresas, associações culturais e Juntas Distritais. A preparação das edições contava com o trabalho de Lopes-Graça na análise, estudo e selecção dos espécimes musicais e nos textos que acompanham os discos.
Entre 1960 e 1983, os ASP publicaram várias colecções discográficas num total de 24 discos. O material fonográfico foi seleccionado em exclusivo a partir das recolhas feitas em todo o país. A divulgação era realizada por meio de um catálogo e a distribuição feita com recurso a um sistema de subscrições. Algumas edições tiveram o apoio de entidades como a Folkway Record de NY, Philips, Le Chant du Monde, Torralta, Círculo de Leitores, Câmaras Municipais e Juntas Distritais.
Os Arquivos Sonoros Portugueses relacionaram-se com organismos estrangeiros, promoveram conferências, exposições, edições, programas de rádio, emissões para a Université Radiophonique Internationale e obtiveram o selo de recomendação do International Institute for Comparative Music Studies and Documentation e do International Music Council para a colecção da Antologia da Música Regional Portuguesa, editada entre 1960 e 1970.